Bets podem deixar o futebol e abrir um rombo nas receitas dos clubes

A possível proibição do patrocínio de bets no futebol deixou de ser uma hipótese distante. Em maio de 2025, o Senado aprovou o PL 2.985/2023, que impõe restrições à propaganda de apostas, como a vedação de anúncios com atletas, artistas e influenciadores, e enviou o texto à Câmara. Depois, em fevereiro de 2026, a Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado aprovou uma proposta mais dura, o PL 3.563/2024, que veda publicidade, patrocínio e promoção de bets, inclusive em uniformes de clubes e placas de estádios; o texto ainda precisa avançar no Congresso.
Se essa trava mais rígida sair do papel, o impacto para os clubes tende a ser imediato. Na avaliação de Amir Somoggi, especialista em marketing esportivo e Managing Director da Sports Value, a dependência já virou parte central do caixa. “Houve uma construção dessa dependência ao longo dos anos, com elas pagando cada vez mais”, afirmou. Segundo ele, os grandes clubes concentram algo perto de R$ 1 bilhão em patrocínios de bets, e essa fatia pode representar ao menos 60% da receita de patrocínio em alguns casos.
Esse peso chama ainda mais atenção quando comparado ao alcance real do produto. Em gráfico compartilhado pela Sports Value com a reportagem, as apostas esportivas aparecem com penetração de apenas 25% entre os brasileiros, bem abaixo de categorias como conta em banco (82%), telefone celular (74%) e cartão de crédito (52%). O dado reforça um desequilíbrio: o setor ganhou espaço comercial muito acima de sua presença no consumo de massa.
O que está em jogo no Senado
A discussão legislativa tem duas frentes. A primeira, já aprovada pelo Senado em 2025, mira uma restrição forte, mas não elimina completamente a publicidade. A segunda, aprovada em comissão em fevereiro de 2026, parte para algo mais amplo e veta publicidade, patrocínio e promoção, inclusive em propriedades esportivas. O texto da CCT prevê que clubes, federações e estádios não poderão exibir logomarcas de empresas de apostas em uniformes ou placas, além de proibir campanhas em mídia tradicional e digital.
O pano de fundo dessa ofensiva regulatória é o aumento da preocupação com endividamento, jogo problemático e publicidade abusiva. Em 2024, a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda já havia editado uma portaria que responsabiliza operadores por publicidade abusiva ou enganosa e proíbe patrocínio esportivo por empresas não autorizadas.
O primeiro choque seria na receita
Para Somoggi, a perda mais rápida estaria no valor dos contratos de camisa. “Os clubes grandes vão sofrer muito, porque eles têm contratos muito valiosos e você não encontra mais marcas dispostas a pagar, bancos, empresas de consumo, no geral, com o mesmo valor de patrocínio”, disse. Na leitura dele, uma proibição faria o mercado sentir uma correção forte logo na largada, porque vários acordos atuais foram fechados em patamares muito acima da referência histórica do setor.
Esse efeito atinge especialmente os clubes grandes. Ao contrário do que parece, os menores não seriam os únicos pressionados. Os clubes de topo carregam os contratos mais caros e, por isso, têm mais a perder em valor absoluto. Somoggi resumiu assim: “na proporção, os grandes vão sofrer mais”.
A camisa pode perder valor no curto prazo
O impacto não ficaria restrito ao fim de um patrocinador. Ele mexeria com a régua de preço do mercado. Segundo Somoggi, antes da explosão das bets, um patrocínio master de camisa de um grande clube girava em torno de um valor muito inferior ao observado hoje. Com a entrada agressiva das casas de aposta, alguns acordos passaram da casa de R$ 120 milhões a R$ 150 milhões, inflando o preço desse ativo comercial. “No curto prazo, sim”, afirmou, ao comentar a chance de queda no valor dos patrocínios de camisa se as bets saírem de cena.
Os contratos não quebrariam sozinhos, mas entrariam em revisão
No campo jurídico, a tendência não é de ruptura automática. Segundo Rafaella Krasinski, advogada especialista em Direito Empresarial, uma eventual proibição abriria espaço para renegociação, revisão ou até rescisão, mas tudo dependeria da redação de cada contrato. “Antes de falar em ‘quebra’, eu falaria em uma provável onda de renegociações”, afirmou.
A lógica é direta: boa parte desses acordos foi construída em torno de exposição de marca em uniforme, placas, entrevistas, redes sociais e ativações. Se a nova lei atingir justamente essas entregas, o clube perde valor comercial e a base do contrato muda. Krasinski destaca que o direito à indenização não seria automático; ele dependeria da distribuição de riscos, de cláusulas sobre mudança regulatória e da forma como a nova lei vier redigida.
O cenário internacional já mostra o tamanho do ajuste
Esse risco não é apenas teórico. O cenário internacional, citado na própria entrevista, ajuda a medir o tamanho do ajuste. Na Premier League, os clubes decidiram, em 2023, retirar de forma voluntária os patrocinadores de apostas da frente das camisas a partir da temporada 2026/27. Foi a primeira liga esportiva do Reino Unido a adotar esse movimento de forma coletiva.
Para Somoggi, a experiência europeia ajuda a entender o que pode acontecer no Brasil. Ele citou que o mercado espanhol já sentiu esse tipo de restrição e observou que, ali, o peso foi maior sobre clubes menores, porque Real Madrid e Barcelona já não dependiam de bets na camisa. “Na Espanha, Real Madrid e Barcelona têm enorme peso no total, e bem os dois não têm bet na camisa, então o peso maior foi para os menores; é o contrário daqui, onde todos praticamente têm”, afirmou.
O especialista também trouxe uma leitura estratégica sobre a Inglaterra. Na visão dele, a Premier League percebeu que as casas de aposta usavam a visibilidade global da liga, especialmente na Ásia, como vitrine para crescer fora do mercado inglês. Isso ajudou a aumentar a pressão por revisão do modelo.
O problema não é só de receita, mas de modelo
O ponto mais incômodo para os clubes talvez seja este: o debate não trata apenas de quanto dinheiro sairia do futebol, mas de como esse dinheiro foi incorporado ao modelo de negócio. Na leitura de Somoggi, o setor se acomodou ao chamado “easy money” e reduziu o esforço de diversificação comercial.
“Esse Easy Money trabalhou contra o marketing esportivo brasileiro”, afirmou. Para ele, o futebol trocou qualidade e variedade de patrocinadores por um setor que paga muito, mas fala com uma base de consumo bem mais restrita do que outros mercados de massa.
O efeito pode chegar até salários e mídia
Somoggi chama atenção para um segundo nível de risco: há acordos que vão além da simples visibilidade de marca e ajudam a sustentar folha, luvas e montagem de elenco. Se uma parcela do contrato estiver “carimbada” para pagar jogador, por exemplo, o clube pode ter de absorver esse custo sozinho caso a exposição comercial deixe de ser permitida. “Pode aumentar a dívida do clube, sim”, afirmou.
O impacto também pode transbordar para as transmissões. Segundo ele, as bets não estão apenas nas camisas; elas compraram espaço em TV, rádio, internet e com influenciadores. Assim, uma restrição ampla afetaria toda a cadeia de mídia ligada ao esporte.
Há substitutos, mas não no mesmo preço
A pergunta mais óbvia é: quem pode ocupar esse espaço? Para Somoggi, tecnologia, bancos, seguradoras, meios de pagamento, varejo, e-commerce, alimentos, bebidas e healthcare são candidatos naturais. Ele usa o tabaco como paralelo histórico: quando a publicidade de cigarro perdeu espaço no esporte, outros setores entraram depois.
O problema é o timing. Esses segmentos existem e têm escala. Mas, hoje, nenhum deles parece disposto a pagar o prêmio que as bets pagam. Por isso, a troca de patrocinador não seria instantânea nem neutra. Primeiro viria o ajuste de preço; depois, a disputa por uma nova composição comercial.
O cenário mais provável ainda é de restrição parcial
Apesar do barulho em torno da proibição total, Krasinski avalia que o caminho mais provável, neste momento, ainda é intermediário. “Hoje, o cenário mais provável me parece ser o de restrição parcial, e não de proibição total imediata”, disse. Na visão dela, o Congresso tende mais a limitar formatos, horários, personagens e contextos de exposição do que a banir tudo de uma vez.
Essa leitura conversa com o que já foi aprovado no Senado em 2025: uma linha de restrição pesada, mas não de eliminação total. Ainda assim, o avanço do PL 3.563/2024mostra que a pressão aumentou e que o futebol já não pode tratar esse risco como algo remoto.
O problema real é o modelo de negócio
No fim, a discussão não é só sobre perder dinheiro. É sobre descobrir quanto do futebol brasileiro ficou dependente de uma fonte de receita que pode encolher por decisão regulatória. Krasinski resumiu esse ponto de forma precisa: “essa discussão não é só sobre receita. É também sobre modelo de negócio”.
Essa talvez seja a principal consequência da possível proibição do patrocínio de bets no futebol. O choque inicial seria financeiro. Mas o teste mais duro viria depois: separar os clubes que construíram marcas capazes de atrair patrocinadores de vários setores daqueles que simplesmente se acostumaram ao dinheiro fácil.
FONTE: https://bpmoney.com.br/ocasional/bets-podem-deixar-o-futebol-e-abrir-um-rombo-nas-receitas-dos-clubes/

