Existem eventos esportivos que permanecem na memória coletiva por algumas semanas. Outros atravessam gerações porque conseguem transformar realidades muito além da competição. A diferença entre eles não está, necessariamente, na qualidade dos jogos, na infraestrutura construída ou no desempenho dos atletas, mas na capacidade de produzir mudanças permanentes para o esporte e para a sociedade.

No campo das políticas públicas, costuma-se dizer que o verdadeiro legado de um grande evento não é medido durante sua realização, mas anos depois, quando se torna possível avaliar se aquele momento foi capaz de ampliar oportunidades, fortalecer instituições e consolidar políticas que continuem produzindo resultados mesmo depois que os refletores se apagam.

Essa reflexão ganha especial relevância diante da realização da Copa do Mundo Feminina da FIFA de 2027 no Brasil. Pela primeira vez, o maior torneio do futebol feminino será disputado na América do Sul, colocando o país no centro das atenções do esporte mundial. A conquista é, sem dúvida, histórica. Mas talvez a pergunta mais importante não seja se o Brasil realizará uma grande Copa do Mundo. A verdadeira questão é outra: estaremos preparados para transformar um evento de pouco mais de um mês em um processo permanente de desenvolvimento do futebol feminino?

Essa distinção é fundamental.

Megaeventos esportivos são, por natureza, temporários. O desenvolvimento esportivo, ao contrário, é um processo contínuo, construído por meio de políticas públicas, planejamento, investimentos permanentes e fortalecimento institucional. Não se desenvolve uma modalidade esportiva apenas pela realização de uma competição internacional, por mais relevante que ela seja. Desenvolve-se quando o ambiente criado por esse evento é capaz de gerar oportunidades que permaneçam acessíveis às próximas gerações.

A própria Constituição Federal oferece um importante ponto de partida para essa reflexão. Ao estabelecer, em seu artigo 217, que é dever do Estado fomentar práticas desportivas formais e não formais como direito de cada cidadão, o texto constitucional reconhece o esporte como uma política pública e um instrumento de desenvolvimento humano. Essa previsão afasta a compreensão do esporte como mero entretenimento e o posiciona como ferramenta de inclusão social, promoção da saúde, formação cidadã e redução de desigualdades.

Sob essa perspectiva, a Copa do Mundo Feminina de 2027 não deve ser analisada exclusivamente pela ótica do calendário esportivo. Ela representa uma oportunidade para acelerar um processo que já vem ocorrendo no país e que, nos últimos anos, passou a apresentar avanços importantes.

A Confederação Brasileira de Futebol anunciou investimentos superiores a R$ 685 milhões para o ciclo compreendido entre 2024 e 2029, com foco no fortalecimento do futebol feminino. O planejamento contempla a ampliação das competições nacionais, o fortalecimento das categorias de base, investimentos em arbitragem, formação de treinadoras, desenvolvimento de competições e melhoria da estrutura da modalidade. Paralelamente, o calendário nacional foi ampliado, aumentando o número de competições oficiais e proporcionando maior regularidade competitiva às atletas.

Esses números demonstram que o futebol feminino brasileiro vive um momento de expansão institucional.

No entanto, seria um equívoco imaginar que investimentos financeiros, isoladamente, são suficientes para consolidar um legado permanente. Recursos representam condição indispensável para o desenvolvimento de qualquer política pública, mas não substituem planejamento, continuidade e capacidade de execução.

A experiência internacional demonstra exatamente isso.

Após sediar a Copa do Mundo Feminina de 2023, Austrália e Nova Zelândia estruturaram programas voltados ao aumento da participação feminina no esporte, à ampliação da formação de treinadoras, ao fortalecimento das categorias de base e ao desenvolvimento das ligas nacionais. Na Inglaterra, a realização da UEFA Women’s Euro 2022 foi acompanhada por políticas públicas que ampliaram significativamente o acesso de meninas ao futebol escolar e comunitário. Em ambos os casos, o legado não decorreu da competição em si, mas das decisões tomadas antes e depois dela.

O Brasil possui condições para construir um caminho semelhante.

Entretanto, isso exige compreender que o desenvolvimento do futebol feminino não depende exclusivamente da atuação da FIFA, da CBF ou do poder público. Clubes, federações, organizações da sociedade civil, universidades, empresas e instituições que atuam na formação esportiva também ocupam papel central nesse processo.

Talvez seja justamente nesse ponto que reside a maior oportunidade proporcionada pela Copa do Mundo de 2027.

Enquanto o evento mobilizará atenção internacional por algumas semanas, milhares de organizações espalhadas pelo país terão a possibilidade de transformar essa visibilidade em ações permanentes voltadas à iniciação esportiva, à formação de atletas, à capacitação de profissionais, ao fortalecimento da gestão esportiva e à ampliação do acesso de meninas ao futebol.

É nesse ambiente que os projetos esportivos incentivados assumem especial relevância.

Muito além de instrumentos destinados à captação de recursos, eles constituem mecanismos capazes de aproximar políticas públicas das necessidades locais. Por meio deles, clubes, associações, organizações da sociedade civil e municípios conseguem estruturar iniciativas voltadas à formação esportiva, aquisição de equipamentos, qualificação profissional, manutenção de equipes, desenvolvimento de categorias de base e promoção da inclusão social por meio do esporte.

A publicação da Lei Complementar nº 222/2025 fortalece ainda mais essa perspectiva ao consolidar normas gerais para os incentivos fiscais ao esporte e conferir maior estabilidade ao sistema. Embora diversos dispositivos ainda dependam de regulamentação pelos entes federativos, a nova legislação reforça uma mensagem institucional importante: o incentivo ao esporte deixa de ser compreendido como uma política transitória e passa a ocupar posição permanente dentro da arquitetura das políticas públicas brasileiras.

E políticas permanentes exigem planejamento permanente.

Talvez essa seja a principal mudança de paradigma que a Copa do Mundo Feminina de 2027 nos convida a realizar.

Enquanto uma Copa do Mundo acontece ao longo de poucas semanas, a formação de uma atleta de alto rendimento pode exigir mais de uma década de investimentos contínuos. Entre a iniciação esportiva, as categorias de base, o acompanhamento multidisciplinar, a qualificação técnica e a profissionalização existe uma trajetória que não pode ser construída às pressas para atender ao calendário de um evento internacional.

Por essa razão, organizações que pretendem contribuir para esse legado precisam iniciar seu planejamento muito antes do jogo de abertura. Projetos esportivos, parcerias institucionais, estratégias de financiamento, fortalecimento da governança e estruturação técnica não são consequências da Copa. São condições para que ela produza efeitos permanentes.

No fim, talvez o sucesso da Copa do Mundo Feminina de 2027 não seja medido apenas pela ocupação dos estádios, pela audiência das transmissões ou pelo desempenho da Seleção Brasileira. Esses resultados serão importantes, mas inevitavelmente passageiros.

O verdadeiro legado será observado alguns anos depois, quando pudermos responder a uma pergunta muito mais relevante: o Brasil conseguiu ampliar, de forma permanente, as oportunidades para meninas que desejam praticar futebol? Fortaleceu seus clubes, qualificou seus profissionais, estruturou organizações esportivas e criou condições para que mais projetos chegassem às comunidades que historicamente permaneceram distantes das grandes competições?

Se a resposta for positiva, o país terá realizado muito mais do que uma Copa do Mundo.

Terá utilizado um dos maiores eventos esportivos do planeta para concretizar aquilo que a própria Constituição Federal já estabelece como dever do Estado e responsabilidade compartilhada pela sociedade.

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