O recente afastamento de John Textor do comando da SAF do Botafogo de Futebol e Regatas e o cancelamento da assembleia que discutiria um aporte de R$ 125 milhões, reacenderam dúvidas sobre a sustentabilidade financeira e a governança do modelo no curto e médio prazo.

A decisão interrompe, ao menos temporariamente, uma das principais frentes de capitalização da SAF. Em um momento, em que o clube ainda depende de injeções constantes de recursos para sustentar sua operação e competitividade esportiva.

Pressão imediata sobre o caixa

Segundo Rafaella Krasinski, advogada especialista em Direito Empresarial e estruturação de projetos incentivados, a suspensão do aporte pode gerar impactos diretos na liquidez da SAF.

“Em uma SAF, aportes de capital como esse normalmente integram o planejamento orçamentário, sendo destinados a despesas estruturais como folha salarial, contratações e operação. A suspensão compromete diretamente o capital de giro e pode exigir ajustes emergenciais”, explica.

Além da pressão financeira, o adiamento da assembleia também afeta o processo de governança, ao postergar decisões estratégicas relevantes, como aumento de capital e reorganizações societárias.

“A ausência do aporte pode levar à reprogramação orçamentária, com contingenciamento de despesas, e até acionar gatilhos contratuais, como descumprimento de covenants, dependendo da estrutura existente”, afirma.

Sem emissão de ações, alternativas têm custo maior

A emissão de novas ações, que seria discutida na assembleia, representava uma das principais vias de capitalização da SAF. Sem essa alternativa, o clube passa a depender de mecanismos que, em geral, trazem maior custo ou impacto futuro.

Entre as opções estão o endividamento estruturado, antecipação de receitas e venda de ativos, como jogadores, estratégias comuns no futebol, mas que podem afetar a sustentabilidade no médio prazo.

“O clube pode recorrer a empréstimos, debêntures ou antecipação de receitas comerciais, o que melhora a liquidez no curto prazo, mas aumenta o passivo ou compromete receitas futuras”, diz Krasinski.

Ela também cita alternativas como parcerias comerciais e instrumentos híbridos de investimento, como convertible notes, que permitem captação sem diluição imediata, mas exigem maior sofisticação jurídica e financeira.

Instabilidade pesa sobre valuation e captação

Para além do impacto imediato no caixa, o episódio levanta um ponto mais sensível: o efeito sobre a percepção de risco da SAF no mercado.

“Instabilidades societárias afetam diretamente o valuation, a capacidade de captação e a confiança de investidores e patrocinadores”, afirma Krasinski.

Segundo ela, o valor de uma SAF está fortemente ligado às expectativas futuras de geração de receita e governança. Ruídos nesse ambiente reduzem a previsibilidade e elevam o risco percebido.

“O mercado passa a exigir maior segurança jurídica, o que pode resultar em due diligences mais rigorosas, exigência de garantias adicionais ou até afastamento de potenciais investidores”, explica.

Além disso, patrocinadores também tendem a reagir a esse tipo de cenário, uma vez que a associação de marca depende de estabilidade institucional.

Risco sistêmico para o modelo

Na avaliação da especialista, a eventual saída de um investidor relevante como Textor vai além de um evento isolado e pode gerar efeitos em cadeia.

“Há uma pressão imediata sobre o caixa, redução das alternativas de capitalização via equity e aumento do risco percebido pelo mercado”, diz.

Em estruturas como SAF, onde governança, capital e performance esportiva estão diretamente conectados, a estabilidade societária passa a ser um dos principais ativos estratégicos.

O episódio no Botafogo, portanto, não apenas impacta o clube no curto prazo. Mas, também serve como teste para a maturidade do modelo de SAF no Brasil.

Especialmente, em relação à confiança de investidores e à previsibilidade das estruturas de financiamento.

FONTE: https://bpmoney.com.br/noticias/por-que-a-crise-na-saf-do-botafogo-levanta-alerta-sobre-caixa-e-confianca-do-mercado/

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